“Ó abre páginas, que eu quero passar”

Empolgado pela repercussão das páginas que fiz para O homem que calculava, resolvi falar um pouco sobre o processo de adaptação, que, longe de ser O método, tem atendido bem ao meu objetivo. Parte desse post foi motivado por uma amiga que viu a evolução de uma das páginas da adaptação.

A primeira pergunta dela foi: “vc faz tudo direto no computador?” Devo dizer que não tive computador sempre e usei muito papel e lápis (ainda uso, com certeza), mas para a minha produção em quadrinhos, confesso que fazer tudo no computador, além de agilizar o trabalho, me permite riscar e rabiscar à vontade, fazendo uma verdadeira “colcha de retalhos digital” (recortando, colando, ampliando, flipando, rotacioando etc). No “mundo real” tudo isso seria mais moroso e (mais) cansativo.

Neste post vou me deter a uma das etapas mais desafiadoras (na minha opinão): “abrir uma página”. Não sei se o termo “correto” é esse, mas é o que eu uso. Abrir uma página é distribuir, no espaço, os requadros, criar o ritmo da narrativa, o peso que os quadrinhos terão na página. Uma definição que pode abrir espaço para reparos, mas para mim é mais fácil fazer do que falar. Trabalho muito no esquema “começo, meio e… gancho”, ou seja, procuro fazer com que cada página leve o leitor para a seguinte. Em O homem que calculava, minha tarefa inicial foi determinar os “pontos de virada” (de página) e buscar resolver as questões dentro dos limites que estipulei. A edição do livro que possuo apresenta os 3 primeiros capítulos da obra em 9 páginas. Descontando a diagramação, devem dar de 5 a 6 páginas de texto corrido, portanto eu não queria ultrapassar o limite de 6 páginas, mas isso foi um objetivo meu.

Sabendo o que poderia conter em uma página, começo então a… desenhar? Não! Ainda considero a narrativa a coisa mais importante dentro dos quadrinhos. E o texto. Depois vem o desenho. Parece estranho, mas só comecei a agir assim depois de anos. No começo a gente quer desenhar, encher a página com gente musculosa e mulheres gostosas, perspectivas arrojadas, muita ação e pancadaria. E depois vc (ou outro) que dê seu jeito para entrar com os balões!

Diagramar uma página é uma arte e um dos meus mestres no assunto se chama Mike Mignola. Por mais que eu tente, não consigo nem de longe alcançar a elegância das páginas que ele diagrama. Sem contar com o fato de que Mignola consegue distribuir os textos sem sufocar os quadrinhos, coisa de gênio!

Hoje eu começo distribuindo os textos primeiro. E o tamanho dos quadrinhos vai se guiando pelas massas textuais. Uso uma coisa chamada “grid” tb (coisa de designer gráfico :P). Resolvida a questão, o que sobrar é onde entra o desenho. O processo se inverteu! Claro que não deixo o texto tomar conta de tudo, mas a experiência e a boa e velha “tentativa e erro” ajudam na hora de por texto e imagem para dialogar, não para discutir ou disputar.

Abaixo separei duas páginas diferentes que ilustram esse tipo de processo. Em uma delas só coloquei os textos. Já na outra, me empolguei e rascunhei como poderiam ser os desenhos, mas os rascunho só entraram depois de dispor os textos. É uma etapa muito livre, com muito espaço para experimentar, uma vez que tudo está muilto solto, com traços simples.

pg07.jpg

pg08Em uma outra oportunidade mostrarei que nem sempre as coisas saem do jeito q nascem, isto é, até a página ganhar o carimbo de “aprovada”, coisas podem acontecer, mas falarei mais sobre isso em futuro próximo.

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