O primeiro “block-in” a gente nunca esquece

Antes que a gente pense que se trata de um bloqueio em redes sociais, o termo “block-in” refere-se a uma etapa no desenho (e também em outras expressões visuais) em que se estabelecem as linhas gerais do trabalho e que serão melhor detalhadas em etapas posteriores.

Conheci recentemente um livro chamado Drawing Course, de Charles Bargue e Jean-Leon Gérome. Trata-se de uma publicação que reúne quase 200 imagens (originalmente litogravuras) que fizeram parte de um curso desenvolvido e divulgado no final do século XIX. Até então eu nunca ouvira falar deles e vi que algumas escolas que acompanho em redes sociais falam sobre eles e usam o método para ensinar figura humana numa abordagem acadêmica.

Edição “de luxo” do livro de Bargues e Gérome

Nem vou entrar no mérito da necessidade do ensino ou não do desenho acadêmico pois isso dá muito pano pra manga, com defensores e pessoas contrárias a esse pensamento. O fato é que me agrada e acho necessário para o meu momento. Boa parte do método reside na cópia de pranchas prontas, buscando desenvolver habilidades principalmente no que diz respeito a desenhar o que se e não que se sabe. Outro livro que li durante a pandemia foi Desenhando com o lado direito do cérebro, de Betty Edwards, um clássico da literatura voltada ao ensino do desenho. A autora também trabalha a ideia de desenhar a partir do que nossos olhos estão vendo, e não a partir do nosso conjunto de símbolos reunidos ao longo da vida.

Tanto em um livro quanto no outro, o fato é que desenhar é uma atividade que pode ser aprendida e desenvolvida… por qualquer um. É fácil? Ninguém disse isso. Ainda mais em um momento nosso em que a busca por resultados em intervalos cada vez menores virou padrão. Desenhar (e tantas outras atividades) requer tempo e paciência (estas palavras estão na introdução do livro de Bargues e Gerome).

A conversa rende muito e bastante gente já se debruçou sobre o assunto, com mais propriedade do que eu. Aqui, quero apenas registrar os momentos desta etapa na minha vida. Um momento em que me vejo tendo a necessidade de puxar o freio de mão e ter mais foco no estudo, não me influenciando, não me distraindo ou mesmo não me comparando com o trabalho e caminho dos outros.

Nesta empreitada, descobri um canal chamado The Da Vinci Iniciative que traz uma série de vídeos mostrando como realizar um exercício baseado nas pranchas do curso de Bargues e Gerome, desde a etapa de block-in até o rendering (sobre esta etapa falaremos no futuro). Tudo em tempo real (sem edição ou timelapse). Recomendo para quem está interessado em conhecer e se permitir experimentar o método.

“Flagrante” de um momento em que acompanho a instrutora Mandy Theis, do canal The Da Vinci Iniciative, ensinando como reproduzir uma das pranchas do livro Drawing Course.
A etapa de block-in envolve alguns termos usados no método como a ideia de notional space e de envelope. A seguir tem-se a transferência de medidas do desenho original para a reprodução. Tudo merece calma e atenção. Sem pressa.
Após um tempo que muitos considerariam bastante (levei dois dias nesta etapa), finalizei meu primeiro block-in sobre um dos trabalhos de Bargues e Gérome.
O primeiro “block-in” a gente nunca esquece