“Nada se cria, tudo se copia”

Tive a ideia para esse cartum há um tempo atrás. Arrisco a dizer q certamente alguém (ou “alguéns”) já deve ter feito algo parecido, igual ou melhor. Às vezes reluto em continuar ideias q parecem óbvias, movido pelos pensamentos de: “vc copiou a ideia de outra pessoa”; ou então “essa ideia é muito fraca!”

É inevitável, uma hora a gente vai copiar o outro ou seremos copiados pelos demais. É muita gente vivendo, pensando, criando. Muita gente já viveu, pensou e criou antes de nós. E muitos, muitos outros viverão, pensarão e criarão tb. Dois exemplos de “plágio inconsciente” aconteceram envolvendo trabalhos meus e de dois grandes cartunistas: Rodrigo Minêo e Dálcio Machado (os meus são este e este). Conheço o Rodrigo e até escrevi para ele, falando sobre a similaridade dos trabalhos e ele foi bastante tranquilo.

Postei o cartum a seguir no meu instagram e a receptividade foi muito boa (até me surpreendi). Mas como não faço textos reflexivos lá, resolvi falar um pouco sobre este trabalho aqui no blog. Tem gente q lê, gosta, se interessa. Independente de quem está na outra ponta, registrar, comentar, refletir sobre um trabalho tem tanto peso quanto a obra em si.

E convenhamos, ler 3 ou 4 parágrafos não arranca pedaço de ninguém, não é mesmo?

Sujô!

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“Nada se cria, tudo se copia”

Ímpares em pares

Faz muito tempo q eu postei uma composição criada com uma antiga Lettera 82 da minha infância, todavia sempre tive vontade de fazer o mesmo trabalho, mas com alguma animação. E finalmente consegui.

Para ver o resultado, basta clicar aqui ou sobre a imagem abaixo.

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Ímpares em pares

Nus estudos

Mais um sábado passou e venho mantendo a promessa de praticar técnicas tradicionais de ilustração, isto é, algo meio “digitaless”.

Devo dizer q, por muito tempo, condicionei estudar com fins práticos. Já comentei q estudar aquarela, no passado, foi movido pelo desejo de participar de salões de humor. Naquela época eu precisava de um “mote” para estimular os estudos. Depois acabei meio q usando isso pra tudo: a necessidade me fazia correr atrás de produzir. Não me refiro à necessidades externas, mas internas.

Ao publicar um story no Instagram mostrando minha mesa de trabalho do dia 2/2, um amigo me perguntou depois o q eu estava aprontando. Eu falei q não tinha nada em mente. Estava seguindo apenas uma meta de começo de ano: praticar, estudar, investigar. Até qdo isso será assim eu não sei, mas vou viver um dia de cada vez. Mesmo assim acabei dizendo q tencionava montar oficinas de ilustração. Mas isso só deverá acontecer mais à frente. E para tanto eu preciso praticar um pouco mais.

Se no passado eu me dizia, por exemplo: “vou fazer um cartum para participar de tal concurso” e isto me dava foco, tirando essa motivação, como fazer? No sábado eu simplesmente estendi os papéis sobre a bancada e… esperei. Nada na cabeça. Rapidamente a mente pragmática começa a zunir e a cobrar coisas como “vc está perdendo tempo”, “vc deveria estar fazendo isso, fazendo aquilo”. Dar ouvido a essas vozes é a pior coisa a fazer. Foi aí q tive o insight: vou riscar uns nus. Desenhei muito nu artístico qdo morei em São Paulo e um pouco qdo trabalhei na 2DLab. É um tema de q gosto muito, mas desta vez eu não iria ligar computador, selecionar modelo e desenhar. Fiz de memória, só para aquecer. Queria estudar pastel e guache. O nu não era o objetivo. E esses exercícios são ótimos, pois eles vão me dando dicas, caminhos, possibilidades para quando surgir um tema de verdade, ou seja, aumentam meu repertório. Após os nus, fiz mais dois estudos e terminei a parte da manhã de sábado.

À tarde a ideia era fazer algo mais objetivo, pois o treinamento “livre” foi durante a manhã. Mais “aquecido”, parti para desenvolver um rascunho antigo. Infelizmente não registrei as duas etapas iniciais: a marcação a lápis e a marcação com guache. Como ainda estou me aperfeiçoando com a técnica, ao cobrir o desenho a lápis com a tinta guache preta, veio-me um sentimento q, na minha opinião, difere o iniciante do veterano: acreditar q aquelas manchas pretas meio caóticas irão se tornar uma ilustração de fato. O iniciante vacila, hesita, quase desiste frente ao “caos” inicial. O veterano tem a experiência a seu favor. Ele sabe q o aparente “desastre” do começo é só um processo para chegar ao final. Eu estou no meio do caminho. Ainda dá desespero ver a técnica ser meio “selvagem”, mas sigo em frente, acreditando e perseverando.

O resultado me agradou e reforça o q relatei acima, isto é, se tivesse ficado com “medo de errar”, q é um sentimento dos mais comuns para quem está começando ou ainda caminhando, não me surpreenderia positivamente com o trabalho final.

Abaixo, alguns registros do que foi mais um sábado entre tintas, papéis e diversão.

 

Nus estudos

Números nada redondos

Certamente vc, amigo leitor, amiga leitora, já deve ter ouvido falar em raiz quadrada. Não pretendo me alongar em definições (até pq não as sei de cor), mas vou direto ao ponto: vc tb já ouviu falar na raiz quadrada de 2, certo?

O número q, elevado ao quadrado, resulta o número 2 pertence a um grupo muito específico de números: os irracionais. Dentre eles um dos mais conhecido é o pi. Um número irracional é aquele q não pode ser representado na forma a/b, sendo a e b números inteiros. Por exemplo, o número 4 é racional, pois pode ser representado por 4/1 (4 e 1 são inteiros). Dízimas também são números racionais, apesar de infinitas. Por exemplo, 0,333… pode ser representado por 1/3 (1 e 3 são números inteiros).

Agora pago uma cerveja se vc me apresentar dois números inteiros q, se apresentados sob a forma a/b resultem a raiz quadrada de 2. E para q vc não perca seu tempo e tente ganhar a cerveja de qq jeito, sugiro procurar um cara chamado Euclides. Ele tem um argumento bastante convincente sobre o q estou falando. Tão convincente q se chama prova matemática (e olha q esse negócio de prova matemática é coisa séria!).

Mas por que falar sobre números tão esdrúxulos? Se a gente pensar q a Natureza é perfeita pq só usa “números redondos”, vamos quebrar a cara. Dizem q a descoberta da existência de números não “perfeitinhos” remonta à época de Pitágoras, e q Hipaso de Metaponto, membro da Escola Pitagórica, teria sido assassinado pq, ao brincar com a raiz quadrada de 2, não encontrou uma fração q definisse tal número. Ao contar sua descoberta a Pitágoras, este não teria gostado nenhum pouco da história e sentenciou Hipaso à morte por afogamento.

Mas a verdade é q os números irracionais estão aí e muitos ao nosso alcance. Quer ver só? Vc já se perguntou por que uma folha de papel A4 possui as medidas q tem? São elas: 297×210 mm. Por q 297mm? Por q não 300mm? Ou 295mm? Experimente dividir 297 por 210. O resultado é uma aproximação de quem? Dela mesma, a raiz quadrada de 2! Os papéis da série “A” (A0, A1, A2,…) seguem uma regra: o maior é duas vezes o tamanho do menor. Tome uma folha A4 e dobre-a ao meio pelo lado de maior dimensão. As folhas resultantes serão duas A5 (dobre o A5 ao meio e vc terá duas folhas A6). E se vc pegar a maior medida e dividir pela menor, vai encontrar um número q se aproxima do irracional raiz quadrada de 2. Essa “proeza” encontrada nos papéis A só é possível porque a relação entre seu comprimento e sua largura é igual à raiz quadrada de 2.

E acho melhor parar por aqui. Essa conversa já deve estar dando nó na cabeça de muita gente. Para descontrair, um cartum. Embora a raiz quadrada de 2 seja apenas uma, permite-me a licença poética multiplicá-la (não ao infinito, é claro).

raiz_quadradade2

 

Números nada redondos

Aurora

Tenho me programado para, no sábado pelo menos, dedicar-me à ilustração mais tradicional. É um momento mais experimental, sem criar expectativas ou correr atrás de resultados a curto prazo. Não faz parte de listas de começo de ano, mas calhou de acontecer no início de 2019. A semana é apertada e este é o tipo de atividade q e eu desejo duas coisas: não ter hora pra começar, tampouco hora para acabar. Meio difícil em meio a contextos tão cheios de horários, metas, objetivos. Confesso q isso por vezes me cansa. É a era da (enxurrada de) informação, cada um querendo dizer q seu conteúdo é vital, promissor, revolucionário. A gente gasta tanto tempo escolhendo o quer ver, q não sobra tempo para ver aquilo q escolhemos, quando escolhemos.

Resolvi abrir um dos vários cadernos de apontamentos e desenvolver algumas ideias, alguns rascunhos q rabisquei em algum momento lá atrás. E uma das muitas coisas a aprender: nem sempre vai sair do jeito q eu pensei q iria ficar. Aqui valem várias reflexões. Se eu não conheço ou domino a técnica, estarei ainda à mercê do q vai acontecer, isto é, a técnica ainda “controla” a situação. O remédio é praticar: qto mais prática, mais domínio, menos agilidade, mais controle. Mas ainda há outra coisa: mudanças no design, na forma. Coisas q nasceram no rascunho de uma forma são transformadas pela linguagem. Exemplo: uma estrela a lápis não será a mesma estrela qdo eu usar tinta. Talvez a prática também ajude a aproximar as coisas, mas devo dizer q é mais rico ver como a técnica vai “dizer” tal coisa do que forçá-la a “dizer” como eu quero. Não gosto das palavras controlar ou dominar (embora eu as tenha usado acima). Dá sempre a sensação de q algo ou alguém foi subjugado. Melhor falar sobre concessões: deixar q as coisas sejam um pouco como elas podem ser e me surpreender com os resultados.

A ilustração do fim de semana começou no sábado e terminou no domingo. Em meio ainda às cobranças internas, quase abandonei-a no meio do caminho, mas perseverei. As fotos estão bem melhores q a versão real, o q me estimulou a divulgar o resultado. O objetivo aqui é o processo, a caminhada, a trajetória. E o discurso q nasce disso tudo.

Não costumo batizar ilustração, mas neste caso foi diferente e esta leva o nome do título deste post.

Aurora

Dos meus tempos de criança

Foi numa história em quadrinhos Disney. O tema era artes. Pouco lembro a história, os personagens, nada. Mas a lembrança dos “extras” ainda persiste. O gibi trazia algumas atividades q poderiam ser realizadas por crianças. Uma delas ficou na minha memória e até hoje eu me recordo. Já escrevi a respeito em alguma postagem q se perdeu nas mudanças de url, mas resumidamente trata-se de uma técnica q envolve giz de cera e tinta naquim. Sobre o papel, rabisque manchas com o giz de cera. A seguir, cubra tudo com nanquim preto. Como o nanquim é à base água e o giz é oleoso, eles não vão se misturar. A tinta vai secar e ficar sobre o giz. Quando estiver seco, raspe a tinta devagar e a cor do giz será revelada. Simples assim.

Hoje eu faço minhas adaptações. Ao invés de giz de cera, uso pastel oleoso, q possui uma paleta um pouco mais rica q as cores do giz. E no lugar do nanquim eu uso guache preto. Para a raspagem, estilete, mas também consigo efeitos interessantes usando palha de aço para raspar a tinta.

Recentemente tirei as tintas, os pincéis e os papéis das caixas. Sobre a mesa/bancada improvisada, ideias vão ganhando forma novamente. Na contramão da tecnologia, as técnicas tradicionais trabalham os sentidos: a visão, o tato, o olfato, até a audição são impressionados.

 

Dos meus tempos de criança