Uma ajudinha aí

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Já faz um bom tempo q eu queria fazer algo do tipo, mas ou achava arriscado falar sobre o tema ou faltava vontade mesmo.

Não vivo de desenho, mas passo boa parte do meu tempo envolvido com essa atividade. Daí o título desta “série”. Com certeza o assunto pode ter vários desdobramentos, com aprofundamentos. Não é o meu objetivo. Reuni 5 dicas q procuro fazer com regularidade. A lista não é hierárquica, nenhuma dica é melhor ou mais importante q a outra. Talvez sirva para vc ou para alguém q vc conheça e esteja precisando de uma “forcinha”.

Dica 1 – Tenha sempre um caderno à mão

Você pode ter hora certa para treinar o desenho, mas certamente um insight, uma ideia, um “estalo” não vão esperar vc estar com o melhor material, no local local adequado, com o tempo voltado para isso. Tenho ideias vendo TV, dirigindo ou no banco do carona, ouvindo uma conversa entre colegas, dormindo. Acredite, elas virão sem pedir licença ou cerimônia, atropelando seu almoço ou qq outra coisa. Também elementos da paisagem, coisas q vc vê na rua, pessoas, animais vão chamar sua atenção e se vc não estiver preparado para registrar isso tudo, uma hora ou vc vai esquecer ou vai perder os detalhes. Andar com um bloco (e lápis ou caneta, é claro) à mão ajuda a registrar essas ou outras coisas q despertem seu interesse. Tenha mais de um caderno, de tamanhos variados. Alguns vc poderá levar no bolso, outros poderão ocupar sua bolsa ou mochila ou ainda ficar em cômodos da sala, mas acostume-se a ter um caderno próximo a vc.

Dica 2 – Goste do seu traço

Sobre a dica número 1 vc já deve ter ouvido, visto ou lido coisas a respeito. Mas eu não me recordo de ter ouvido coisas similares ao q vou comentar agora (devem existir, mas eu nunca achei). Gostar do próprio traço é uma jornada para a vida. Alguns dias vc vai achar lindo o q está desenhando. Noutros, vai rasgar tudo e nada vai lhe agradar. Vai desejar desenhar como aquele seu ídolo e se frustará pq vc não é ele (e nunca será, acredite). Ainda em outros dias terá um pouco de “paz interior”, pq sabe q o seu traço é único (e é, acredite). Oscilaremos entre bons períodos e outros não tão legais, mas é assim mesmo. Estamos todos aprendendo. Nosso olhar muda, nosso gesto muda, nosso traço também. Aprendamos a gostar de cada uma dessas etapas. Uma coisa q me ajuda muito é o distanciamento. Quando vc tiver mais de um caderno preenchido (olha a dica 1 aí fazendo sentido!), poderá comprovar o q estou falando. Ao folhear meus blocos antigos, admiro os progressos, as soluções q encontro, o qto já caminhei. Pode também rolar aquela sensação de quando se olha foto antiga: q cabelo horrível! como engordei! como podia usar esse tipo de roupa! ufa! estou bem melhor agora. Tudo faz parte.

Dica 3 – Pesquise suas referências

Existe uma frase atribuída a Isaac Newton: Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes. Nosso trabalho sempre terá alguma influência de quem já viveu antes ou tem mais experiência do que a gente. Pesquisar, estudar, compreender a obra dos nossos ídolos ou referências nos ajuda a sermos nós mesmos, mas lembre-se, nada de se comparar ou querer ser um “segundo fulano ou fulana de tal”.
Como comecei com uma frase, tentei verificar a veracidade de uma outra, desta vez dita por um dos Beatles, porém não achei a fonte, mas o texto era mais ou menos assim: quanto mais copiei (copiamos?) Elvis Presley, mais me tornei John Lennon (nos tornamos Beatles).

Dica 4 – Pratique um pouco diariamente

Tá certo, essa aqui é o calcanhar de aquiles. Eu pratico desenho TODO DIA? Não, não dá. Cotidiano, imprevistos, preguiça mesmo, tudo entra no pacote para deixar para o dia seguinte. Recentemente li em um livro q bastariam apenas 15 minutos (no caderno sempre à mão, claro) diariamente para a gente treinar. Veja só, 15 minutos. Quanto tempo a gente passa em redes sociais, por exemplo? Dá uma olhadinha no aplicativo q tem no seu celular q faz isso pra vc e pense a respeito.
Dizem (outra frase q a gente ouve e meio q passa sem comprovar a veracidade, mas tentei também, sem sucesso) q um famoso violonista teria dito: quando não pratico (violão) por um dia, eu sinto a diferença; quando não pratico por dois dias, meu público nota a diferença. Se isso foi dito ou não, particularmente pouco me importa. O fato é q o exercício constante e perseverante é fundamental no desenho (e não apenas nele).

Dica 5 – Treine o desenho de observação

Pra fechar. A menos q vc tenha uma mente prodigiosa, fotográfica, como se diz, desenhar de memória é pra poucos. Ou para aqueles q já praticaram muuuuuito. Na hora de desenhar isto ou aquilo, pegue uma ou mais referências fotográficas sobre o tema, estude, compreenda, decomponha, risque e rabisque. Mais tarde isso ficará na sua cabeça e aí, sim, vc poderá desenhar… de memória.

Fico por aqui. Mais uma vez peço perdão por citar frases sem comprovar a veracidade, mas fiquemos com o conteúdo delas. E agora é só por em prática.

Uma ajudinha aí

E começa 2020…

A brincadeira é velha, mas guarda lá sua verdade. Até a festa do Carnaval, o ano começa meio morno, sonolento (para muitos nem começa direito!). É a época das férias, do descanso muitas vezes merecido, do mercado “adormecido”, dentre outras coisas. Não faço parte desse grupo, mas paira uma certa energia deste tipo no ar.

Sendo vc ou não uma pessoa q se enquadre ou se identifique com esta realidade, o fato é q o Carnaval de 2020 aconteceu no final de fevereiro, mês de ano bissexto, e, no calendário, a festa caiu no dia 25. Hoje é dia 1/3, mas minha vizinhança (e umas tantas outras) estendeu as comemorações e ainda rola uma ressaca de Carnaval. Normal.

Dentre algumas coisas q comecei a pensar (e executar) para 2020, não como “lista de projetos para o ano novo”, mas como parte de um processo natural (assim espero), está o estudo consciente de uma atividade q me acompanha desde a infância: desenhar. Não tem aquela brincadeira: “gosta de desenhar, né? Por que não aprende?” Pois bem, retomei os estudos de modelo vivo (desta vez com um professor medalhão do Rio de Janeiro), comprei um curso de desenhos para principiantes (isso mesmo, principiantes), vasculhei minha biblioteca atrás de livros comprados há muito tempo e já foram dois meses de boa imersão no tema. Minha lista tem outras “disciplinas”, mas não vamos misturar as estações.

O “garimpo”da biblioteca já me rendeu bom material para 2020: o livro do Wucius Wong (já devidamente comentado ainda este ano); e alguns de uma série bem antiga, q saiu pela Editora Globo, o Curso de Desenho e Pintura. Tenho 3 volumes, capa dura, bem impressos e conservados, apesar das marcas do tempo em forma de manchas no papel. Dos 3, aquele mais genérico, com mais cara de “book one” é o A Arte de Ver: cor e perspectiva. Destaco abaixo a capa e a primeira página do livro, com tudo aquilo q eu queria ler neste “começo de ano”.

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Exercício constante, perseverante, paciente e sem alta expectativa. A questão não está na quantidade de horas dispensadas, nem tampouco na grandiosidade dos temas.

Sobre o tempo dedicado ao estudo, vai o conselho do segundo parágrafo do capítulo A importância do esboço (imagem acima): quinze minutos. Pense bem: a gente passa muito, muito, muito mais tempo q isso nas redes sociais. Quando este livro foi publicado, não havia a quantidade de estímulos dispersantes q encontramos hoje. Estamos na Era da Sobrecarga da Informação, com pouco foco para nos dedicarmos ao q realmente queremos, infelizmente.

Quanto ao tema (ou temas), vai o outro conselho de levar sempre à mão um caderno de esboços (informação valiosa presente na mesma imagem “printada”). Se der “branco”, falta de inspiração, bloqueio, basta olhar ao redor e perceber q, para aquele q realmente gosta, desenhar é algo prazeroso e estimulante em si mesmo. A vontade de dissecar este assunto é grande – só me falta o foco para desenvolver – mas algo q tem me ajudado a seguir em frente mesmo qdo estou sem ideias para desenhar é uma frase do artista Bandeira de Mello (o professor medalhão de modelo vivo citado acima): “se vc não consegue desenhar o q está vendo, não conseguirá desenhar o q está pensando” (ou sentindo). Um dos grandes “amigos” do desenhista é o desenho de observação. No livro A Arte de Ver existem diversas sugestões de exercícios simples, mas fundamentais e essenciais, na minha opinião. Até pq diante de um “tema de verdade” (e por conseguinte mais complexo): uma natureza morta, um corpo humano, uma paisagem, um animal, tudo pode ser reduzido a formas simplificadas. Então por que negligenciar o estudo de praticar desenho de coisas simples? Propositadamente deixei uma página aberta de um caderno de esboços meu com duas canecas. Numa das aulas do professor Bandeira ele me disse: acorde, tome um bom café, depois pegue seu caderno e desenhe uma natureza morta com os elementos q vc tem na cozinha.

Quinze minutos, gente. Dá pra desenhar uma caneca, um prato, uma caixa de leite, uma garrafa em quinze minutos. Bora praticar?

Tudo isso não é pra ninguém, mas para mim. A dispersão, a correria do dia a dia, as diversas pequenas atividades q drenam nosso tempo e energia fazem minar nossas forças. O ano ganha novo ritmo após o Carnaval, mesmo: é ano letivo começando (pra quem estuda ou tem filho em idade escolar), é trânsito, é demanda de trabalho… Todavia não custa tentar. E nada melhor q uma “virada de ano” pra começar algo novo, não é? Em dezembro a gente comenta sobre esse post. E ainda em tempo, Feliz 2020!

E começa 2020…

Peleja

1m x 0.7m
3 dias
9 horas

Segundo o dicionário, peleja é uma luta com ou sem armas, uma contenda, uma briga, uma disputa.

Felizmente (ou finalmente) consegui participar de uma sessão de desenho de modelo vivo ministrada por Bandeira de Mello, artista mineiro, de Leopoldina, nascido no final da década de 1920 e ainda na ativa. Alguns dos meus colegas e amigos já passaram pela experiência. Uma sessão, não. Três. Uma mesma pose durante 3 dias, em sessões q duram em média 3 horas (com intervalos, graças a Deus).

Para alguém q teve de se virar para desenhar e cujas sessões de modelo vivo eram para os famosos desenhos de 1, 5 ou 10 minutos, a tarefa de enfrentar 9 horas em uma única pose parece um desafio estafante ou impaciente. Tem lá sua verdade nisso. O primeiro dia foi como se tivesse saído de uma surra. Mente e corpo em frangalhos. Para completar, eu, q desenho no máximo na dimensão de um papel A3 (29,7x42cm), tive de enfrentar quase 1 metro quadrado de papel branco montado em um cavalete (as medidas do papel estão na primeira linha deste texto). A imponência do grande formato. Encaixar o modelo no hiperbólico retângulo já é por si só um desafio. Depois os outros: esboço da forma, anatomia, sombreamento.

Termino o primeiro dia satisfeito por pelo menos ter enquadrado a figura. Mas revendo o resultado, vi q “roubei” nas proporções para encaixar todo o corpo no papel. Não aguentei: pior o erro da paginação do q comprometer a pose e de quebra ainda errar o tamanho da perna da modelo. Resultado: um dos pés ficou de fora. A pose q escolhi é meio nível iniciante: não teve rosto nem mão pra desenhar. Pelo menos sobrou um dos pés para praticar o detalhe. Não q tenha sido fácil. A musculatura das costas é bastante trabalhosa e não me agradou o q fiz.

Só de vida profissional, Bandeira tem mais tempo do q eu de vida. Vencidas 4 décadas desta existência, devo ter 2 delas no ofício do desenho, num aprendizado irregular e sem inconstante. Ao menos o resultado me agradou no final, entre receios, vícios e virtudes.

Finalizo a primeira peleja, q é como Bandeira se refere ao ato de desenhar. Eu acho q no começo é meio uma briga, mesmo. Uma dia a gente ganha a luta, noutro a gente perde., como ele mesmo disse. Mas o importante é a vitória ao fim da batalha. Lutar o bom combate.

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Peleja

Wucius Wong em P5

Não lembro bem quando, mas faz tempo q comprei um livro de capa azul chamado Príncipios de Forma e Desenho, de Wucius Wong, um pintor chinês nascido em 1936, figura de destaque na arte contemporânea chinesa. Realmente eu queria me recordar o motivo da compra, mas o fato é q este é o tipo de livro q eu espero não ter q me desfazer.  A edição q eu tenho é de 1998. Entrei na faculdade de desenho industrial em 1997. E lá se vão mais de 20 anos desde a compra do livro. Atualmente estou numa “batalha”, lendo Sinais e Símbolos, do Adrian Frutiger. Digo batalha pq não se trata de um romance. É o tipo de livro q merece ser estudado. Assim que terminá-lo, quero ler (de verdade) o livro do Wucius Wong. Mas vamos falar um pouco mais sobre este último.

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Capa da edição de 1998, que saiu pela editora Martins Fontes

Todo em preto & branco, o autor chinês apresenta uma série de conceitos e exercícios de expressão bidimensional e tridimensional. O volume único na verdade é a compilação de 3 dos 4 livros escritos por Wong: Principles of Two-Dimensional Design, Principles of Three-Dimensional Design e Principles of Two-Dimensional Form. Ficou de fora o Principles of Color Design (até pq para este uma impressão em cores seria indispensável), mas já tá bom, pois o volume tem mais de 340 páginas. Lendo o prefácio e a orelha do livro, percebe-se uma coisa interessante: a presença da informática como ferramenta de expressão. O autor relata o quanto os desenhos ganharam em celeridade (e precisão) quando os programas gráficos computacionais entraram em cena. Talvez maravilhado com essa possibilidade o autor fizesse tanta questão em apresentar os programas q ele usou. Entretanto o curioso (quase engraçado) é notar q alguns dos programas citados ou não existem mais ou foram modificados, pois as recursos computacionais mudam muito rápido. O livro apresenta informações de escolha de programas, primeiros passos, setup básico de computador. Eu acho essa a parte mais “datada” da obra, quase dispensável para um leitor do século XXI q já nasce imerso em tecnologia.

Mas o material mais importante certamente não é esse. O livro é rico em padrões e composições muito bonitas e atraentes, algo q posso considerar como conteúdo atemporal pois se foi feito à mão ou usando um programa gráfico, o resultado visual é o mais impressionante. Padrões geométricos e figurativos encantam a humanidade desde a antiguidade e são quase um patrimônio da criação humana, tamanha é a sua presença nas mais diversas culturas e civilizações.

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Padrões e composições exemplificam os conceitos do livro. No canto inferior direito da página à direita está a imagem q serviu para um dos meus estudos

Diante dessa pluralidade de possibilidades de execução, pensei: poderia fazer algumas dessas composições usando programação “bruta”? Claro q um CorelDraw, um Illustrator ou mesmo um Inkscape são ferramentas mais amigáveis para fazer tais coisas, menos sofridas até. Todavia o desafio q me proponho é fazer alguns testes, algumas pontes entre o resultado figurativo gerado e os comandos de uma linguagem como “ferramentas” de desenho. Também é uma forma de aprender a traduzir o q vejo e treinar representar além do lápis e papel ou dos programa de computador.

Devo dizer q não é fácil, principalmente pela minha pouca bagagem ainda no terreno da programação, mas são bons desafios e exercícios. Apresento dois deles – q tb podem ser conferidos no meu perfil no Openprocessing.

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Uma das possibilidades que a programação abre é poder gerar figuras animadas, uma vez que todas as imagens dos livros são estáticas

 

Wucius Wong em P5

Uma obsessão pela linha

Eu queria muito ter ainda os rabiscos originais. Não sei se joguei fora ou onde eles estão, mas eram linhas q desenhei seguindo um padrão q era formar triângulos a partir de um traço único. E isso tem anos. Talvez mais de 5…

O fato é q alguns temas me são recorrentes e este não é diferente. Descobri (ou redescobri, pois tenho a impressão de ter visto o trabalho deste artista “em algum lugar no passado”) o trabalho de Ben Shahn, nascido na Lituânia e falecido nos EUA, e q, junto a Paul Klee, aumentam o time de artistas q usam a linha com maestria.

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Paul Klee. Para mim um dos mestres no uso da linha.
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Ben Shahn. Tenho a impressão de ter visto esse trabalho em algum momento da minha vida.

Recordo-me tb de uns exercícios de desenho q eram sugeridos para serem feitos de olhos fechados, deixando o lápis/caneta riscar o papel livremente (usava-se até música em algumas ocasiões) e depois colhia-se o resultado. Geralmente as linhas eram sinuosas, mas eu investigava algo mais “robótico”, experimentando traçados mais retos com mudança de direção usando ângulos. Eram muitas as possibilidades: triângulos, quadrados, hexágonos, polígonos irregulares…

Migrando os suportes, as experiências com o “traço mágico” usando programação vão-me apresentando novos resultados a partir de variações do código, muitas delas incrivelmente simples, mas q resultam belos traçados.

Segue uma variação do exercício, desta vez usando como referência os antigos (e agora refeitos) esboços feitos a caneta sobre papel.

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Rascunho feito a caneta
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Versão digital gerada a partir de javascript/p5

Sem dúvidas – pra mim, pelo menos – apesar da facilidade e interesse nos resultados artísticos obtidos a partir das linguagens de programação, a linguagem do gesto tem o seu poder e fascínio. Para ver o “computador desenhar”, clique aqui e divirta-se!

Uma obsessão pela linha

Rio 40 graus

A primavera resolveu se despedir mais cedo na capital do antigo Estado da Guanabara este ano. Desde domingo último, 15/12, os termômetros registraram altas temperaturas aqui no Rio de Janeiro. É o verão chegando. Difícil manter-se em casa sem uma boa refrigeração, difícil até para estudar, mas vamos lá. Algumas aquarelas, manchas de guache q depois viraram cabeças estilizadas e uma primeira tentativa de representar os telhados q avisto da janela do meu quarto feito à carvão.

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Rio 40 graus

“Pela tela, pela janela”

Novembro se despede num sábado de sol aqui no Rio de Janeiro. Aproveito o dia para tirar a ferrugem da aquarela depois de ter visto pela n-ésima vez ontem um documentário sobre o pintor Paul Klee. As aguadas serviram como aquecimento, um “polichinelo” para começar o dia.

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Aquecimento matinal. Ainda voltarei à aquarela. Por enquanto só brincadeiras.

A principal razão de ter optado pelo apartamento em q estou morando é uma espécie de “avanço” na sala com uma boa janela, quase do teto ao chão. Aí montei a prancheta e faço meus estudos tradicionais – o computador ficou no quarto, mas ele também já visitou este espaço, numa espécie de rodízio q promovo de tempos em tempos.

A vista da janela não dá para uma paisagem paradisíaca, bucólica ou algo do gênero. Minhas posses não me permitem isso ainda. Todavia gosto do q vejo: as construções vão-se “achatando” e o efeito final é o de um mosaico de retângulos (algo tb comum em alguns dos quadros de Klee). Há tb telhados em disposição triangular, outro tema q me agrada, mas q são melhor vistos da janela do meu quarto.

Hj arrisquei retratar um pouco desse mosaico, nada ainda com cor, apenas me concentrando nas linhas e massas. Escolho um pedaço da vista e realizo um esboço rápido, fugindo à tentação de riscar detalhes. Em seguida, com nanquim e pincel, busco a síntese com linhas e  manchas. Meu objetivo não ė partir para pintura, mas uso o pincel para gerar texturas e preencher áreas de forma rápida. Ao final, tento abrir luzes com o nanquim branco. O resultado final me agradou. Outros estudos virão.

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Vale destacar q, embora eu tenha usado uma foto para ilustrar o post, o desenho foi feito observando diretamente a cena. Noto uma diferença muito grande entre qdo desenho a partir de uma foto ou do motivo “real”, sendo este último bem mais dificil, por causa da escala dos objetos, a própria ótica e outros fatores mais subjetivos. Em todo caso, as 2 situações são desafiadoras.

“Pela tela, pela janela”

O desenhar

“Na criação de formas gráficas bidimensionais, a linha representa o meio expressivo mais simples e puro e, ao mesmo tempo, também o mais dinâmico e versátil.”

– Sinais & Símbolos, Adrian Frutiger

O desenho acompanha minha vida desde q “me entendo por gente”: começou na minha infância; adentrou a fase escolar; dividiu meu tempo durante o ensino médio; ganhou mais ênfase na fase universitária; segue comigo até hoje. Não é minha atividade fim, mas é meio, recurso, para quase tudo na minha vida profissional.

Após 4 décadas convivendo comigo mesmo, algumas coisas a gente aprende no ofício ou atividade q persiste em nossa vida por tanto tempo.

Uma delas é encarar o desenho como um instrumento de fato, algo como a nossa letra. Tem gente q tem “letra bonita”; outros têm “letra de médico”; alguns terão “letra de criança”; e por aí vai… Apesar da análise estética, o mais importante de uma letra é o registro das ideias e a comunicação das mesmas. Se eu pego um texto escrito e consigo lê-lo, a beleza da caligrafia não é o mais importante. Posso até prestar atenção a isso, mas certamente – pelo menos para mim – a função da letra é outra. Então por que seria diferente com o desenho? Leva um bom tempo para gostar do próprio desenho. Isso vai variar de pessoa para pessoa, do momento pelo qual estamos passando. Seu desenho é seu. É sua expressão, sua voz. Assim como a letra, a voz é outra coisa q é particular e gera julgamentos: voz “bonita”, voz de “taquara”…

O desenho ganhou status de arte. E talvez seja uma arapuca. Não existe “galeria de letras artísticas”. Existem textos artísticos, mas é outra coisa. Estimulo e faço uso e abuso dos cadernos de esboço, os sketchbooks. Eles são os meus diários gráficos, o meu “hd” de ideias, o laboratório. Não são objetos para serem venerados ou apreciados como se faz com uma peça de arte. Todavia nós os transformamos nisso pq já vimos muitos destes cadernos de outras pessoas e dá a sensação de q até o “esboço” do outro é mais belo q o nosso mais esforçado e finalizado desenho. Caderno de esboço é pra ter isso: esboço, rascunho, “garrancho”, “tosqueira”.

O caderno de esboço do Leonardo da Vinci certamente é mais bonito do q boa parte dos nossos desenhos mais bem acabados, mas deixa o cara lá! Não é fácil pra mim tb, mas é um exercício, um dia após o outro. Desenhando sempre e “desencucando”.

Comecei esse post citando um trecho de um livro muito bom, do Adrian Frutiger. O desenhista tem na linha sua grande “parceira”, como o pintor tem na mancha a sua “aliada”. Não tenho o hábito de registrar o começo de alguns desenhos, mas acredito q qualquer linha pode terminar em um desenho. A imagem abaixo é um exemplo disso: eu tive a ideia de uma “casa em forma de rosto”. Comecei a rabiscar. O traço foi saindo bem diferente daquilo q eu queria, todavia eu persisti. Em uma certa hora o desenho começou a me agradar e eu fui melhorando as formas. Gostaria de ter registrado o final do grafite antes de partir para uma “finalização” com guache. Então fica pra próxima.

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O desenhar

Três posts pelo preço de um

Meu último post foi em meados de outubro e já estamos próximos da metade do mês de novembro de 2019. Algumas coisas (boas) aconteceram em outubro, como a minha primeira participação em um desafio anual chamado Inktober (uma brincadeira com as palavras ink e October, da língua inglesa): a ideia é fazer um desenho – geralmente “a traço” – por dia, durante os 31 dias do mês de outubro e postar as imagens em redes sociais. Eu adiei essa ideia por bastante tempo – a iniciativa data de 2009 e desde então muita gente aderiu ao desafio. Neste ano eu quis tentar, mas fiz diferente: ao invés de desenhar todo dia, eu desenhei nos dias do mês cujos números fossem primos. Mole, não? Nos 31 dias de outubro contamos 11 números primos (2, 3, 5, 7, 11, 13, 17, 19, 23, 29 e 31). E chamei minha brincadeira de Primo nosso de cada dia. Procurei fazer os desenhos me referindo aos eventos comemorados nestes dias ou simplesmente abordando alguma característica/curiosidade dos números. O resultado pode ser conferido no meu Instagram.

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Todos os números q fizeram parte do Primo nosso de cada dia. Embora o número 1 não seja primo, foi importante para dizer quem é e quem não é primo.

Ainda em outubro desenhei para a seção Oráculo, da revista Superinteressante. O resultado ficou bem bacana e ter a chance de ilustrar para uma revista q fez parte da minha infância e adolescência foi como um presente, uma vez q meu aniversário foi em outubro também. Tomara q não siga o mesmo padrão da ocorrência dos aniversários, pois não gostaria de esperar até o ano q vem para participar de novo da revista, mas isso já não está mais nas minhas mãos. As ilustrações estão tanto na versão impressa da revista (mês de novembro) bem como no perfil de Instagram da Super.

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Páginas da seção Oráculo da edição de novembro de 2019 da Superinteressante. Além da abertura, três outras ilustrações minhas estão presentes na seção.

Pra fechar a “trilogia”, algumas páginas resultantes de estudos em guache e nanquim, baseados nas “vídeo-aulas” do Davi Calil,  grande ilustrador e professor de guache na Quanta Academia de Artes. O cara tem um canal no YouTube com 100 vídeos (até então) em “tempo real”, em q ele pinta e dá altas dicas de pintura e desenho. Recomendo muito!

 

Três posts pelo preço de um