Nus estudos

Mais um sábado passou e venho mantendo a promessa de praticar técnicas tradicionais de ilustração, isto é, algo meio “digitaless”.

Devo dizer q, por muito tempo, condicionei estudar com fins práticos. Já comentei q estudar aquarela, no passado, foi movido pelo desejo de participar de salões de humor. Naquela época eu precisava de um “mote” para estimular os estudos. Depois acabei meio q usando isso pra tudo: a necessidade me fazia correr atrás de produzir. Não me refiro à necessidades externas, mas internas.

Ao publicar um story no Instagram mostrando minha mesa de trabalho do dia 2/2, um amigo me perguntou depois o q eu estava aprontando. Eu falei q não tinha nada em mente. Estava seguindo apenas uma meta de começo de ano: praticar, estudar, investigar. Até qdo isso será assim eu não sei, mas vou viver um dia de cada vez. Mesmo assim acabei dizendo q tencionava montar oficinas de ilustração. Mas isso só deverá acontecer mais à frente. E para tanto eu preciso praticar um pouco mais.

Se no passado eu me dizia, por exemplo: “vou fazer um cartum para participar de tal concurso” e isto me dava foco, tirando essa motivação, como fazer? No sábado eu simplesmente estendi os papéis sobre a bancada e… esperei. Nada na cabeça. Rapidamente a mente pragmática começa a zunir e a cobrar coisas como “vc está perdendo tempo”, “vc deveria estar fazendo isso, fazendo aquilo”. Dar ouvido a essas vozes é a pior coisa a fazer. Foi aí q tive o insight: vou riscar uns nus. Desenhei muito nu artístico qdo morei em São Paulo e um pouco qdo trabalhei na 2DLab. É um tema de q gosto muito, mas desta vez eu não iria ligar computador, selecionar modelo e desenhar. Fiz de memória, só para aquecer. Queria estudar pastel e guache. O nu não era o objetivo. E esses exercícios são ótimos, pois eles vão me dando dicas, caminhos, possibilidades para quando surgir um tema de verdade, ou seja, aumentam meu repertório. Após os nus, fiz mais dois estudos e terminei a parte da manhã de sábado.

À tarde a ideia era fazer algo mais objetivo, pois o treinamento “livre” foi durante a manhã. Mais “aquecido”, parti para desenvolver um rascunho antigo. Infelizmente não registrei as duas etapas iniciais: a marcação a lápis e a marcação com guache. Como ainda estou me aperfeiçoando com a técnica, ao cobrir o desenho a lápis com a tinta guache preta, veio-me um sentimento q, na minha opinião, difere o iniciante do veterano: acreditar q aquelas manchas pretas meio caóticas irão se tornar uma ilustração de fato. O iniciante vacila, hesita, quase desiste frente ao “caos” inicial. O veterano tem a experiência a seu favor. Ele sabe q o aparente “desastre” do começo é só um processo para chegar ao final. Eu estou no meio do caminho. Ainda dá desespero ver a técnica ser meio “selvagem”, mas sigo em frente, acreditando e perseverando.

O resultado me agradou e reforça o q relatei acima, isto é, se tivesse ficado com “medo de errar”, q é um sentimento dos mais comuns para quem está começando ou ainda caminhando, não me surpreenderia positivamente com o trabalho final.

Abaixo, alguns registros do que foi mais um sábado entre tintas, papéis e diversão.

 

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Nus estudos

Aurora

Tenho me programado para, no sábado pelo menos, dedicar-me à ilustração mais tradicional. É um momento mais experimental, sem criar expectativas ou correr atrás de resultados a curto prazo. Não faz parte de listas de começo de ano, mas calhou de acontecer no início de 2019. A semana é apertada e este é o tipo de atividade q e eu desejo duas coisas: não ter hora pra começar, tampouco hora para acabar. Meio difícil em meio a contextos tão cheios de horários, metas, objetivos. Confesso q isso por vezes me cansa. É a era da (enxurrada de) informação, cada um querendo dizer q seu conteúdo é vital, promissor, revolucionário. A gente gasta tanto tempo escolhendo o quer ver, q não sobra tempo para ver aquilo q escolhemos, quando escolhemos.

Resolvi abrir um dos vários cadernos de apontamentos e desenvolver algumas ideias, alguns rascunhos q rabisquei em algum momento lá atrás. E uma das muitas coisas a aprender: nem sempre vai sair do jeito q eu pensei q iria ficar. Aqui valem várias reflexões. Se eu não conheço ou domino a técnica, estarei ainda à mercê do q vai acontecer, isto é, a técnica ainda “controla” a situação. O remédio é praticar: qto mais prática, mais domínio, menos agilidade, mais controle. Mas ainda há outra coisa: mudanças no design, na forma. Coisas q nasceram no rascunho de uma forma são transformadas pela linguagem. Exemplo: uma estrela a lápis não será a mesma estrela qdo eu usar tinta. Talvez a prática também ajude a aproximar as coisas, mas devo dizer q é mais rico ver como a técnica vai “dizer” tal coisa do que forçá-la a “dizer” como eu quero. Não gosto das palavras controlar ou dominar (embora eu as tenha usado acima). Dá sempre a sensação de q algo ou alguém foi subjugado. Melhor falar sobre concessões: deixar q as coisas sejam um pouco como elas podem ser e me surpreender com os resultados.

A ilustração do fim de semana começou no sábado e terminou no domingo. Em meio ainda às cobranças internas, quase abandonei-a no meio do caminho, mas perseverei. As fotos estão bem melhores q a versão real, o q me estimulou a divulgar o resultado. O objetivo aqui é o processo, a caminhada, a trajetória. E o discurso q nasce disso tudo.

Não costumo batizar ilustração, mas neste caso foi diferente e esta leva o nome do título deste post.

Aurora

Da série “a-riscando pra ver o que vai dar”

Já comentei um pouco sobre este “processo” em um post anterior e confesso q tem sido uma experiência interessante. Basicamente o exercício consiste em riscar o papel sem compromisso e só depois ver o q as linhas sugerem. Claro q as escolhas serão influencidadas por um sem número de fatores, mas o mais legal é partir sem julgamentos. Eu ainda persisto em figurar as escolhas, isto é, fazer as linhas lembrarem formas, mas tb faz parte. Haverá momentos em q não terei mais nem esse desejo e será uma liberdade total. Surpresas boas acontecem qdo estamos tão ligados no motivo principal e não percebemos q outras coisas estão se formando “em paralelo”. O tema original até perde um pouco a importância e dá vontade de se concentrar naquilo q surgiu sem a nossa influência. Soluções de design, formas diferentes, intrusas, acabam aparecendo apenas pq não temos a necessidade de representar este ou aquele tema.

Gosto muito de grandes formatos. Tenho feito esses exercícios em folhas com mais de 70cm de comprimeto por 50 de largura. Isso ajuda a “soltar o braço”, é quase uma “aeróbica”. Risco, troco de mão (sou destro, mas me permito ser canhoto neste exercício), rodo a mesa, me afasto, volto a riscar… O medo da folha em branco meio q desaparece pq estou rabiscando aleatoriamente e quando percebo o papel já está com tanta informação, q basta filtrar e seguir um caminho.

No exercício abaixo a primeira figura a tomar forma foi uma madonna, uma virgem, uma freira… Depois os “vultos de cavaleiros” surgiram à direita do desenho.

Houve uma hora q a luz tb quis participar do processo…

Ao final, ainda surgem uma cabeça (q pode ser de uma cobra ou uma baleia de perfil) e uma raposa à esquerda do desenho, sobre o ombro da figura feminina… tudo isso sem ingerir qq substância alucinógena (rs).

Da série “a-riscando pra ver o que vai dar”

Desenhar e correr na rua

Correr na rua é uma das atividades físicas mais baratas. Basta sair de casa… e correr! Claro q sem alguns cuidados, os prejuízos serão maiores q os benefícios. É preciso um bom par de tênis, um terreno regular, alongamento e regularidade na prática, além de alguma orientação para quem nunca correu com a finalidade de tirar o melhor proveito do exercício. Eu costumava correr, mas graças a anos de maus tratos na coluna, coleciono aí umas 2 hérnias de disco na lombar, o q me “aposentou” da atividade. Gostava da sensação durante e após a corrida. Hoje, faço natação. É bom, mas é diferente.

Desenhar na rua é uma das atividades mais baratas. Basta pegar lápis e papel… e desenhar! Claro que sem algumas orientações, as frustrações serão maiores q as alegrias. Com um pouco de teoria, um material razoável e regularidade na prática a gente começa a gostar do q sai da folha de papel… Diferente da corrida, eu ainda continuo desenhando na rua.

“Descobri” o grafite não tem muito tempo (macaco velho com mais de 30!). Com um bloco de papel e um lápis de “puro grafite” é possível fazer muita coisa. As outras técnicas vão exigir q vc use tintas, pincéis, água, fita crepe, um cavalete e por aí vai. Nada contra, aprecio quem sai com aquarela, por exemplo, para fazer estudos “plein air” e até já fiz algumas vezes, todavia às vezes me pego com preguiça de sair com o aparato ou algum tema, situação, paisagem me pegam de surpresa. Quando percebo, só tenho o bloco e o lápis na mochila. Grafite é como o primeiro kata do karatê: é sempre bom recordá-lo e saber q é no grafite q vemos os fundamentos da forma, do claro-escuro, do desenho…

Após anos de experiência no mercado, tentando me adaptar às linguagens, lutando para ter um estilo mais “comercial”, confesso q ando cansado. No grafite, tenho notado q meu desenho ainda precisa de muita técnica, muito estudo… isso se eu quiser “agradar” ou me “encaixar” nesta ou naquela linha. Não sou imune a isso, ainda quero “me enquadrar”, mas nos momentos em q me permito não seguir rótulos, ou fico exausto um pouco deles, o resultado pode ser “desastroso”, todavia um tanto mais recompensador internamente. E noto q uma dose de liberdade expressiva pode me ajudar quando preciso fazer algo mais dentro de um “padrão de mercado”. O discurso do tal “estilo pessoal” como disfarce para a displicência com o estudo é muito comum e espero não cair nesta armadilha quando noto q as “manchas” aparecem como recurso expressivo consciente e não como uma tentativa de encobrir os “buracos” da minha falta de estrutura.

O estudo a seguir eu comecei no jardim do Palácio do Catete, no Rio. Depois terminei em casa à minha maneira…

Desenhar e correr na rua