E começa 2020…

A brincadeira é velha, mas guarda lá sua verdade. Até a festa do Carnaval, o ano começa meio morno, sonolento (para muitos nem começa direito!). É a época das férias, do descanso muitas vezes merecido, do mercado “adormecido”, dentre outras coisas. Não faço parte desse grupo, mas paira uma certa energia deste tipo no ar.

Sendo vc ou não uma pessoa q se enquadre ou se identifique com esta realidade, o fato é q o Carnaval de 2020 aconteceu no final de fevereiro, mês de ano bissexto, e, no calendário, a festa caiu no dia 25. Hoje é dia 1/3, mas minha vizinhança (e umas tantas outras) estendeu as comemorações e ainda rola uma ressaca de Carnaval. Normal.

Dentre algumas coisas q comecei a pensar (e executar) para 2020, não como “lista de projetos para o ano novo”, mas como parte de um processo natural (assim espero), está o estudo consciente de uma atividade q me acompanha desde a infância: desenhar. Não tem aquela brincadeira: “gosta de desenhar, né? Por que não aprende?” Pois bem, retomei os estudos de modelo vivo (desta vez com um professor medalhão do Rio de Janeiro), comprei um curso de desenhos para principiantes (isso mesmo, principiantes), vasculhei minha biblioteca atrás de livros comprados há muito tempo e já foram dois meses de boa imersão no tema. Minha lista tem outras “disciplinas”, mas não vamos misturar as estações.

O “garimpo”da biblioteca já me rendeu bom material para 2020: o livro do Wucius Wong (já devidamente comentado ainda este ano); e alguns de uma série bem antiga, q saiu pela Editora Globo, o Curso de Desenho e Pintura. Tenho 3 volumes, capa dura, bem impressos e conservados, apesar das marcas do tempo em forma de manchas no papel. Dos 3, aquele mais genérico, com mais cara de “book one” é o A Arte de Ver: cor e perspectiva. Destaco abaixo a capa e a primeira página do livro, com tudo aquilo q eu queria ler neste “começo de ano”.

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Exercício constante, perseverante, paciente e sem alta expectativa. A questão não está na quantidade de horas dispensadas, nem tampouco na grandiosidade dos temas.

Sobre o tempo dedicado ao estudo, vai o conselho do segundo parágrafo do capítulo A importância do esboço (imagem acima): quinze minutos. Pense bem: a gente passa muito, muito, muito mais tempo q isso nas redes sociais. Quando este livro foi publicado, não havia a quantidade de estímulos dispersantes q encontramos hoje. Estamos na Era da Sobrecarga da Informação, com pouco foco para nos dedicarmos ao q realmente queremos, infelizmente.

Quanto ao tema (ou temas), vai o outro conselho de levar sempre à mão um caderno de esboços (informação valiosa presente na mesma imagem “printada”). Se der “branco”, falta de inspiração, bloqueio, basta olhar ao redor e perceber q, para aquele q realmente gosta, desenhar é algo prazeroso e estimulante em si mesmo. A vontade de dissecar este assunto é grande – só me falta o foco para desenvolver – mas algo q tem me ajudado a seguir em frente mesmo qdo estou sem ideias para desenhar é uma frase do artista Bandeira de Mello (o professor medalhão de modelo vivo citado acima): “se vc não consegue desenhar o q está vendo, não conseguirá desenhar o q está pensando” (ou sentindo). Um dos grandes “amigos” do desenhista é o desenho de observação. No livro A Arte de Ver existem diversas sugestões de exercícios simples, mas fundamentais e essenciais, na minha opinião. Até pq diante de um “tema de verdade” (e por conseguinte mais complexo): uma natureza morta, um corpo humano, uma paisagem, um animal, tudo pode ser reduzido a formas simplificadas. Então por que negligenciar o estudo de praticar desenho de coisas simples? Propositadamente deixei uma página aberta de um caderno de esboços meu com duas canecas. Numa das aulas do professor Bandeira ele me disse: acorde, tome um bom café, depois pegue seu caderno e desenhe uma natureza morta com os elementos q vc tem na cozinha.

Quinze minutos, gente. Dá pra desenhar uma caneca, um prato, uma caixa de leite, uma garrafa em quinze minutos. Bora praticar?

Tudo isso não é pra ninguém, mas para mim. A dispersão, a correria do dia a dia, as diversas pequenas atividades q drenam nosso tempo e energia fazem minar nossas forças. O ano ganha novo ritmo após o Carnaval, mesmo: é ano letivo começando (pra quem estuda ou tem filho em idade escolar), é trânsito, é demanda de trabalho… Todavia não custa tentar. E nada melhor q uma “virada de ano” pra começar algo novo, não é? Em dezembro a gente comenta sobre esse post. E ainda em tempo, Feliz 2020!

E começa 2020…

Prato cheio (ou música para os olhos verem)

Esse vai ser um post difícil de começar, pq na verdade eu já queria ir para o meio do texto. Uma forma mais simples de iniciar seria dizer q voltei a estudar processos mais tradicionais de pintura. Sempre gostei muito de aquarela, mas o guache tem me chamado a atenção, principalmente depois de ver bastante coisa de um artista chamado Davi Calil (falei um pouco sobre ele em um post mais antigo). O fato é q ele disponibilizou bastante material em seu canal de YT e eu fiquei estimulado a tentar a nova técnica. Claro q parti para os estudos mais figurativos logo, quebrando a cara ou tendo muita dificuldade para chegar a bons resultados, mas dentre os diversos vídeos postados, alguns se destacam para quem realmente quer estudar: são os de escala tonal.

A princípio são exercícios chatos e monótonos: pintar quadradinhos usando os pigmentos base (ciano, magenta e amarelo), adicionando água, guache branco ou guache preto, criando uma escala com variações cromáticas, partindo de tons mais escuros – a chave baixa – e terminando nos tons mais claros – a chave alta. Fiz um ou outro há um tempo atrás e deixei isso de lado. Todavia vi a necessidade de não pular essa etapa, por mais enfadonha q possa parecer. E na verdade nem é tanto. Enquanto estudava a escala do ciano e do magenta, separadamente, comecei a comparar esse exercício ao dia a dia de um músico, q tb treina escalas com certa periodicidade. É q para o músico, esse tipo de prática já faz parte do processo do aprendizado. O artista visual muitas vezes vai logo para a execução de uma tela, uma pintura, negligenciando por vezes as etapas iniciais, o conhecimento do “alfabeto” do ofício. E isso vale pra quase tudo: quer fazer corpo humano sem estudar anatomia; quer fazer natureza morta sem conhecer composição; quer desenhar ambientes sem conhecer perspectiva…

Criar um quadro, uma imagem, é como tocar uma peça musical. No meio da execução, sua mão (ou sua boca ou seu corpo) deve saber naturalmente como chegar a determinada nota ou acorde. Não dá pra pensar onde fica um ou como montar um acorde menor durante a execução da música. Vc tem q saber. E como saber? Fazendo exercício de escala tonal. E não é uma vez só, não. É com regularidade.

Nos últimos dias estou em casa por causa de uma conjuntivite. A reclusão não me privou de usar a visão e aproveitei o momento para praticar um pouco mais. Seguem alguns resultados dos primeiros estudos de escala tonal com afinco e disciplina. O uso de um prato é meu diferencial, mas serve também para eu entender a “extensão” da escala, buscando cobrir a circunferência da paleta improvisada.

ciano3magenta2amarelo2

Farei o registro de outros estudos. Estes últimos foram feitos apenas com o pigmento, água e guache branco. Existem ainda os exercícios usando guache preto. E muitos outros q eu espero ter fôlego e disciplina pra continuar.

Prato cheio (ou música para os olhos verem)

Da série “a-riscando pra ver o que vai dar”

Já comentei um pouco sobre este “processo” em um post anterior e confesso q tem sido uma experiência interessante. Basicamente o exercício consiste em riscar o papel sem compromisso e só depois ver o q as linhas sugerem. Claro q as escolhas serão influencidadas por um sem número de fatores, mas o mais legal é partir sem julgamentos. Eu ainda persisto em figurar as escolhas, isto é, fazer as linhas lembrarem formas, mas tb faz parte. Haverá momentos em q não terei mais nem esse desejo e será uma liberdade total. Surpresas boas acontecem qdo estamos tão ligados no motivo principal e não percebemos q outras coisas estão se formando “em paralelo”. O tema original até perde um pouco a importância e dá vontade de se concentrar naquilo q surgiu sem a nossa influência. Soluções de design, formas diferentes, intrusas, acabam aparecendo apenas pq não temos a necessidade de representar este ou aquele tema.

Gosto muito de grandes formatos. Tenho feito esses exercícios em folhas com mais de 70cm de comprimeto por 50 de largura. Isso ajuda a “soltar o braço”, é quase uma “aeróbica”. Risco, troco de mão (sou destro, mas me permito ser canhoto neste exercício), rodo a mesa, me afasto, volto a riscar… O medo da folha em branco meio q desaparece pq estou rabiscando aleatoriamente e quando percebo o papel já está com tanta informação, q basta filtrar e seguir um caminho.

No exercício abaixo a primeira figura a tomar forma foi uma madonna, uma virgem, uma freira… Depois os “vultos de cavaleiros” surgiram à direita do desenho.

Houve uma hora q a luz tb quis participar do processo…

Ao final, ainda surgem uma cabeça (q pode ser de uma cobra ou uma baleia de perfil) e uma raposa à esquerda do desenho, sobre o ombro da figura feminina… tudo isso sem ingerir qq substância alucinógena (rs).

Da série “a-riscando pra ver o que vai dar”