Peleja

1m x 0.7m
3 dias
9 horas

Segundo o dicionário, peleja é uma luta com ou sem armas, uma contenda, uma briga, uma disputa.

Felizmente (ou finalmente) consegui participar de uma sessão de desenho de modelo vivo ministrada por Bandeira de Mello, artista mineiro, de Leopoldina, nascido no final da década de 1920 e ainda na ativa. Alguns dos meus colegas e amigos já passaram pela experiência. Uma sessão, não. Três. Uma mesma pose durante 3 dias, em sessões q duram em média 3 horas (com intervalos, graças a Deus).

Para alguém q teve de se virar para desenhar e cujas sessões de modelo vivo eram para os famosos desenhos de 1, 5 ou 10 minutos, a tarefa de enfrentar 9 horas em uma única pose parece um desafio estafante ou impaciente. Tem lá sua verdade nisso. O primeiro dia foi como se tivesse saído de uma surra. Mente e corpo em frangalhos. Para completar, eu, q desenho no máximo na dimensão de um papel A3 (29,7x42cm), tive de enfrentar quase 1 metro quadrado de papel branco montado em um cavalete (as medidas do papel estão na primeira linha deste texto). A imponência do grande formato. Encaixar o modelo no hiperbólico retângulo já é por si só um desafio. Depois os outros: esboço da forma, anatomia, sombreamento.

Termino o primeiro dia satisfeito por pelo menos ter enquadrado a figura. Mas revendo o resultado, vi q “roubei” nas proporções para encaixar todo o corpo no papel. Não aguentei: pior o erro da paginação do q comprometer a pose e de quebra ainda errar o tamanho da perna da modelo. Resultado: um dos pés ficou de fora. A pose q escolhi é meio nível iniciante: não teve rosto nem mão pra desenhar. Pelo menos sobrou um dos pés para praticar o detalhe. Não q tenha sido fácil. A musculatura das costas é bastante trabalhosa e não me agradou o q fiz.

Só de vida profissional, Bandeira tem mais tempo do q eu de vida. Vencidas 4 décadas desta existência, devo ter 2 delas no ofício do desenho, num aprendizado irregular e sem inconstante. Ao menos o resultado me agradou no final, entre receios, vícios e virtudes.

Finalizo a primeira peleja, q é como Bandeira se refere ao ato de desenhar. Eu acho q no começo é meio uma briga, mesmo. Uma dia a gente ganha a luta, noutro a gente perde., como ele mesmo disse. Mas o importante é a vitória ao fim da batalha. Lutar o bom combate.

17fev2020_1

Peleja

“Nada se cria, tudo se copia”

Tive a ideia para esse cartum há um tempo atrás. Arrisco a dizer q certamente alguém (ou “alguéns”) já deve ter feito algo parecido, igual ou melhor. Às vezes reluto em continuar ideias q parecem óbvias, movido pelos pensamentos de: “vc copiou a ideia de outra pessoa”; ou então “essa ideia é muito fraca!”

É inevitável, uma hora a gente vai copiar o outro ou seremos copiados pelos demais. É muita gente vivendo, pensando, criando. Muita gente já viveu, pensou e criou antes de nós. E muitos, muitos outros viverão, pensarão e criarão tb. Dois exemplos de “plágio inconsciente” aconteceram envolvendo trabalhos meus e de dois grandes cartunistas: Rodrigo Minêo e Dálcio Machado (os meus são este e este). Conheço o Rodrigo e até escrevi para ele, falando sobre a similaridade dos trabalhos e ele foi bastante tranquilo.

Postei o cartum a seguir no meu instagram e a receptividade foi muito boa (até me surpreendi). Mas como não faço textos reflexivos lá, resolvi falar um pouco sobre este trabalho aqui no blog. Tem gente q lê, gosta, se interessa. Independente de quem está na outra ponta, registrar, comentar, refletir sobre um trabalho tem tanto peso quanto a obra em si.

E convenhamos, ler 3 ou 4 parágrafos não arranca pedaço de ninguém, não é mesmo?

Sujô!

“Nada se cria, tudo se copia”

Da série “a-riscando pra ver o que vai dar”

Já comentei um pouco sobre este “processo” em um post anterior e confesso q tem sido uma experiência interessante. Basicamente o exercício consiste em riscar o papel sem compromisso e só depois ver o q as linhas sugerem. Claro q as escolhas serão influencidadas por um sem número de fatores, mas o mais legal é partir sem julgamentos. Eu ainda persisto em figurar as escolhas, isto é, fazer as linhas lembrarem formas, mas tb faz parte. Haverá momentos em q não terei mais nem esse desejo e será uma liberdade total. Surpresas boas acontecem qdo estamos tão ligados no motivo principal e não percebemos q outras coisas estão se formando “em paralelo”. O tema original até perde um pouco a importância e dá vontade de se concentrar naquilo q surgiu sem a nossa influência. Soluções de design, formas diferentes, intrusas, acabam aparecendo apenas pq não temos a necessidade de representar este ou aquele tema.

Gosto muito de grandes formatos. Tenho feito esses exercícios em folhas com mais de 70cm de comprimeto por 50 de largura. Isso ajuda a “soltar o braço”, é quase uma “aeróbica”. Risco, troco de mão (sou destro, mas me permito ser canhoto neste exercício), rodo a mesa, me afasto, volto a riscar… O medo da folha em branco meio q desaparece pq estou rabiscando aleatoriamente e quando percebo o papel já está com tanta informação, q basta filtrar e seguir um caminho.

No exercício abaixo a primeira figura a tomar forma foi uma madonna, uma virgem, uma freira… Depois os “vultos de cavaleiros” surgiram à direita do desenho.

Houve uma hora q a luz tb quis participar do processo…

Ao final, ainda surgem uma cabeça (q pode ser de uma cobra ou uma baleia de perfil) e uma raposa à esquerda do desenho, sobre o ombro da figura feminina… tudo isso sem ingerir qq substância alucinógena (rs).

Da série “a-riscando pra ver o que vai dar”

Desenhar do caos

Já vai um bom tempo q não desenho. Sempre bate um medo disso, mas talvez faça parte do meu processo. Como o desenho já não é mais uma obrigação, ele aparece “quando quer”. Até pq me falta responder: o q desenhar? Dias atrás, peguei uma folha de papel e comecei a riscar aleatoriamente, como se fosse um “aquecimento”. Linhas curvas, soltas, despretensiosas. Apenas para cobrir a superfície do suporte. Devidamente “aquecido”, fui desenhar “racionalmente” (em outro papel). Estava esboçando um cartum e não curti muito os resultados. Voltando ao papel de aquecimento, rapidamente enxerguei uma “ordem” nas linhas. Pena não ter registrado  o momento em q uma imagem começou se formar diante de mim.

A partir daquele momento, o desenho surgiu e eu só precisei dar forma. É claro q a partir deste ponto, o racional, o técnico começou a trabalhar, mas gostei muito de ter dado ao “acaso” a oportunidade de ditar o q deveria ser feito. Imagino q muita gente, principalmente desenhistas de concept devem usar artifícios parecidos para não cair em armadilhas do cerébro ou da memória e, desta forma, oferecer algo novo. Afinal, concept é conceito, ideia, precisa ser nova, fora de um contexto estabelecido.

Segue então o resultado, q jamais teria saído desta forma se não tivesse feito como relatei. Batizei de “índio”.

Desenhar do caos

Grafitis…

… ou coisas q têm me dado prazer ultimamente.

O lápis grafite tem me acompanhado há um bom tempo, mas só agora ele começa a ganhar a “posição” de trabalho finalizado, não apenas a de estudo, sketch. Em meio ao meu já não tão novo trabalho como programador visual, o desenho vem ocupando outro espaço, com um timing bem diferente, o q permite me lançar em meios q precisam de tempo e paciência…

Grafitis…