Triângulos, quadrinhos e Leonardo

After a long time… Algumas ideias ainda persistem. Guardadas em cadernos, misturadas a anotações da “vida comum” (lembrete de contas a pagar, números de telefone ou lista de coisas para comprar no mercado) ou ocupando espaço no hd ou na “nuvem”, uma hora elas acabam ganhando vida. Meu traço vai ficando cada vez mais sintético. Tenho medo de q seja apenas preguiça de desenhar. Arriscar a dizer q é estilo é perigoso, pois estilo é algo q se constrói, amadurece. Atribuem uma frase ao grande Leonardo da Vinci:

“Síntese é o último grau de sofisticação.”

Ainda estou em processo (acho q todos estamos). Enquanto isso, segue uma dessas ideias “persistentes”.
Biologia matemática - a reprodução dos triângulos

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Triângulos, quadrinhos e Leonardo

“Feliz ano novo”

De novo!

Embora saibamos q essa coisa de demarcar anos seja simbólica, o q não quer dizer q eu não goste de “viradas de ano”,  é bom poder começar 2018 com o fruto de um trabalho q me preencheu ao longo de 2017. Ainda em 2016, em conversa com um ex-colega de faculdade e amigo desde aquele tempo, André Betonnasi, recebi um roteiro para uma história em quadrinhos. Enferrujado há muito, resolvi aceitar a parceria, pois a ideia me agradara e o porte do trabalho, bem como a liberdade q André me deu para tocar o quadrinho, foram estimulantes.

Comecei os estudos ainda em 2016 e ao longo de 2017 fui publicando partes da produção no meu instagram. A técnica q escolhi para executar o trabalho é um processo q envolve uma vetorização já empregada por mim em algumas ilustrações e na versão em quadrinhos q fiz para o Homem que Calculava, mas é um procedimento extenuante e moroso (e confesso não sei se faria novamente assim). A trama criada por Betonnasi compreendia apenas 8 páginas, mas resolvemos expandir para 9, ou seja, pouca coisa. Todavia eu levei mais de ano para finalizar o desenho e a cor. Claro q não fiz apenas isso ao longo do ano, mas mesmo assim, acho q foi muito tempo para uma história deste porte. Justifico pra mim q muita coisa só poderia ter ocorrido no tempo q ocorreu. Não quer dizer q todas as páginas, por exemplo, nasceram de “primeira”. Tenho um caderno repleto de desenhos de processo, tomadas de decisão (e indecisão tb), além de “rabiscos digitais”. Algumas páginas e quadrinhos devem ter umas 2 versões pelo menos, algumas delas até finalizadas, mas eu via o resultado e decidia q não era o melhor e voltava a estaca zero. Projetos desta natureza jamais seriam comerciais, só se justificam no universo da autoralidade, com prazos mais elásticos. Entretanto essa “elasticidade” é convite e prato cheio para a procrastinação, o desinteresse e o consequente abandono do projeto. Por isso q muita gente acaba “optando” por trabalhar sob pressão.

Hoje estou na casa dos 40. Não sou “moleque”, mas não estou isento de comportamentos q só seriam “justificados” na adolescência ou no começo de carreira. Ao longo de 2017 eu me envolvia na história, avançava um pouco, depois parava, ia fazer outras coisas, isto é, “perdia” o foco. Mas – talvez pela maturidade neste terreno pelo menos – eu conseguia voltar ao projeto e avançava um pouco mais. E a satisfação de ter terminado o trabalho foi o melhor dos resultados.

Se você vai começar, vá com tudo.
Caso contrário, não comece.

Essa poderia ser uma “tradução livre” para os primeiros versos de Roll the dice, de Charles Bukowski, q eu uso como oração:

“If you’re going to try, go all the way.
Otherwise, don’t even start.”

Eu ainda completaria:  comece, vá com tudo, mas… termine.

Nem tudo q eu comecei, terminei, nem quer dizer q eu vá terminar tudo o q vier a começar daqui pra frente. É uma meta, uma filosofia, um exercício diário, constante.

Ao longo de 2017 determinei “datas chave” para finalizar o trabalho: o aniversário do André, o meu aniversário, o fim do ano. Nada. Também inventei de fazer um página web para hospedar o material, uma vez q será difícil ter impresso. E me esmerei aí um pouco mais para fazer algo bacana, ou seja, mais tempo, mais adiamentos.

Felizmente o ano começa, e como eu citei no começo deste texto, é um bom período para apresentar o resultado de uma empreitada.

E sem mais delongas, com vcs, Arqueiro do céu, de André Betonnasi e Marlon Tenório.

capa

“Feliz ano novo”

“Ó abre páginas, que eu quero passar”

Empolgado pela repercussão das páginas que fiz para O homem que calculava, resolvi falar um pouco sobre o processo de adaptação, que, longe de ser O método, tem atendido bem ao meu objetivo. Parte desse post foi motivado por uma amiga que viu a evolução de uma das páginas da adaptação.

A primeira pergunta dela foi: “vc faz tudo direto no computador?” Devo dizer que não tive computador sempre e usei muito papel e lápis (ainda uso, com certeza), mas para a minha produção em quadrinhos, confesso que fazer tudo no computador, além de agilizar o trabalho, me permite riscar e rabiscar à vontade, fazendo uma verdadeira “colcha de retalhos digital” (recortando, colando, ampliando, flipando, rotacioando etc). No “mundo real” tudo isso seria mais moroso e (mais) cansativo.

Neste post vou me deter a uma das etapas mais desafiadoras (na minha opinão): “abrir uma página”. Não sei se o termo “correto” é esse, mas é o que eu uso. Abrir uma página é distribuir, no espaço, os requadros, criar o ritmo da narrativa, o peso que os quadrinhos terão na página. Uma definição que pode abrir espaço para reparos, mas para mim é mais fácil fazer do que falar. Trabalho muito no esquema “começo, meio e… gancho”, ou seja, procuro fazer com que cada página leve o leitor para a seguinte. Em O homem que calculava, minha tarefa inicial foi determinar os “pontos de virada” (de página) e buscar resolver as questões dentro dos limites que estipulei. A edição do livro que possuo apresenta os 3 primeiros capítulos da obra em 9 páginas. Descontando a diagramação, devem dar de 5 a 6 páginas de texto corrido, portanto eu não queria ultrapassar o limite de 6 páginas, mas isso foi um objetivo meu.

Sabendo o que poderia conter em uma página, começo então a… desenhar? Não! Ainda considero a narrativa a coisa mais importante dentro dos quadrinhos. E o texto. Depois vem o desenho. Parece estranho, mas só comecei a agir assim depois de anos. No começo a gente quer desenhar, encher a página com gente musculosa e mulheres gostosas, perspectivas arrojadas, muita ação e pancadaria. E depois vc (ou outro) que dê seu jeito para entrar com os balões!

Diagramar uma página é uma arte e um dos meus mestres no assunto se chama Mike Mignola. Por mais que eu tente, não consigo nem de longe alcançar a elegância das páginas que ele diagrama. Sem contar com o fato de que Mignola consegue distribuir os textos sem sufocar os quadrinhos, coisa de gênio!

Hoje eu começo distribuindo os textos primeiro. E o tamanho dos quadrinhos vai se guiando pelas massas textuais. Uso uma coisa chamada “grid” tb (coisa de designer gráfico :P). Resolvida a questão, o que sobrar é onde entra o desenho. O processo se inverteu! Claro que não deixo o texto tomar conta de tudo, mas a experiência e a boa e velha “tentativa e erro” ajudam na hora de por texto e imagem para dialogar, não para discutir ou disputar.

Abaixo separei duas páginas diferentes que ilustram esse tipo de processo. Em uma delas só coloquei os textos. Já na outra, me empolguei e rascunhei como poderiam ser os desenhos, mas os rascunho só entraram depois de dispor os textos. É uma etapa muito livre, com muito espaço para experimentar, uma vez que tudo está muilto solto, com traços simples.

pg07.jpg

pg08Em uma outra oportunidade mostrarei que nem sempre as coisas saem do jeito q nascem, isto é, até a página ganhar o carimbo de “aprovada”, coisas podem acontecer, mas falarei mais sobre isso em futuro próximo.

“Ó abre páginas, que eu quero passar”

O Homem que Calculava

Dia 6 de maio é uma data relevante para a comunidade matemática: este dia foi instituído como o Dia Nacional da Matemática. E qual a razão da escolha? Tal data celebra o aniversário do professor, escritor e matemático brasileiro Julio Cesar de Mello e Souza, mais conhecido pelo heterônimo de Malba Tahan, q nasceu em 1895 e faleceu em 1974.

Três anos mais tarde eu nasci, mas levei outros quinze para ter contato com a obra do escritor carioca, mais precisamente em uma aula de Física, quando o professor resolveu contar uma história singular à turma: o clássico problema da divisão de 35 camelos entre 3 irmãos. A solução, engenhosa, despertou meu interesse e curiosidade. Não me recordo quando comprei o livro, mas o li algumas vezes e sonhei alto.

Parte deste sonho foi transportar as aventuras do livro para os quadrinhos. Um trabalho árduo, monumental. Ensaiei a empreitada várias vezes, sempre esbarrando em toda uma sorte de desculpas. A última tentativa tem cerca de 5 anos, mais ou menos.

Em 2014, comecei a trabalhar no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, e já nos primeiros dias de trabalho eu soube q Julio Cesar havia sido professor do colégio. Em 2017 e 2018, os eventos mais importantes do mundo da Matemática acontecerão no Brasil. E o Colégio Pedro II resolveu entrar no circuito e organizou um evento que durará até o fim de 2018: o Festival da Matemática do Colégio Pedro II – FESTMATCP2.

E o q eu tenho a ver com tudo isso? O colégio me fez o convite para expor o que já havia feito sobre Malba Tahan! Agora eu precisava correr para cumprir pelo menos a meta inicial que era quadrinizar o famoso problema dos 35 camelos.

Em 5 de maio o FESTMATCP2 teve início e o colégio bancou a impressão do trabalho para exposição. Mas resolvi mostar as 6 primeiras páginas q compõem essas idas e vindas. Contei, para tanto, com a ajuda de um grande colorista, Diego Luis, que conheci nos áureos tempos quando ainda trabalhava na 2DLab.
As páginas podem ser vistas clicando sobre a imagem abaixo.

No dia 6 de maio, consegui colocar no ar o trabalho. Pelo Facebook muita gente curtiu e compartilhou, mas o q mais me chamou a atenção foi o fato de que este livro fez parte da vida de muita gente, o q me deixou feliz, satisfeito e, quem sabe, encorajado a seguir em frente.

Por ora, fica a homenagem à memória do talentoso escritor e do professor que dividiu minha vida em antes e depois de Malba Tahan.

E para terminar, algumas “curiosidades”: para adaptar o capítulo 1, usei uma página de quadrinhos; para o capítulo 2, duas; e para o 3, três páginas. Temos 6 no total. 1, 2 e 3 são os divisores de 6. Se vc somá-los ou multiplicá-los, tb teremos 6 como resultado. E 6 foi o dia em q Malba Tahan nasceu. Tá bom, né?

O Homem que Calculava