O desenhar

“Na criação de formas gráficas bidimensionais, a linha representa o meio expressivo mais simples e puro e, ao mesmo tempo, também o mais dinâmico e versátil.”

– Sinais & Símbolos, Adrian Frutiger

O desenho acompanha minha vida desde q “me entendo por gente”: começou na minha infância; adentrou a fase escolar; dividiu meu tempo durante o ensino médio; ganhou mais ênfase na fase universitária; segue comigo até hoje. Não é minha atividade fim, mas é meio, recurso, para quase tudo na minha vida profissional.

Após 4 décadas convivendo comigo mesmo, algumas coisas a gente aprende no ofício ou atividade q persiste em nossa vida por tanto tempo.

Uma delas é encarar o desenho como um instrumento de fato, algo como a nossa letra. Tem gente q tem “letra bonita”; outros têm “letra de médico”; alguns terão “letra de criança”; e por aí vai… Apesar da análise estética, o mais importante de uma letra é o registro das ideias e a comunicação das mesmas. Se eu pego um texto escrito e consigo lê-lo, a beleza da caligrafia não é o mais importante. Posso até prestar atenção a isso, mas certamente – pelo menos para mim – a função da letra é outra. Então por que seria diferente com o desenho? Leva um bom tempo para gostar do próprio desenho. Isso vai variar de pessoa para pessoa, do momento pelo qual estamos passando. Seu desenho é seu. É sua expressão, sua voz. Assim como a letra, a voz é outra coisa q é particular e gera julgamentos: voz “bonita”, voz de “taquara”…

O desenho ganhou status de arte. E talvez seja uma arapuca. Não existe “galeria de letras artísticas”. Existem textos artísticos, mas é outra coisa. Estimulo e faço uso e abuso dos cadernos de esboço, os sketchbooks. Eles são os meus diários gráficos, o meu “hd” de ideias, o laboratório. Não são objetos para serem venerados ou apreciados como se faz com uma peça de arte. Todavia nós os transformamos nisso pq já vimos muitos destes cadernos de outras pessoas e dá a sensação de q até o “esboço” do outro é mais belo q o nosso mais esforçado e finalizado desenho. Caderno de esboço é pra ter isso: esboço, rascunho, “garrancho”, “tosqueira”.

O caderno de esboço do Leonardo da Vinci certamente é mais bonito do q boa parte dos nossos desenhos mais bem acabados, mas deixa o cara lá! Não é fácil pra mim tb, mas é um exercício, um dia após o outro. Desenhando sempre e “desencucando”.

Comecei esse post citando um trecho de um livro muito bom, do Adrian Frutiger. O desenhista tem na linha sua grande “parceira”, como o pintor tem na mancha a sua “aliada”. Não tenho o hábito de registrar o começo de alguns desenhos, mas acredito q qualquer linha pode terminar em um desenho. A imagem abaixo é um exemplo disso: eu tive a ideia de uma “casa em forma de rosto”. Comecei a rabiscar. O traço foi saindo bem diferente daquilo q eu queria, todavia eu persisti. Em uma certa hora o desenho começou a me agradar e eu fui melhorando as formas. Gostaria de ter registrado o final do grafite antes de partir para uma “finalização” com guache. Então fica pra próxima.

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O desenhar

A esponja

Aqui vai um texto sem imagens. Elas, as imagens, ficarão por sua conta.

Imagine q sua cabeça é um grande esponja.

Boa parte da vida nós passamos “encharcando a esponja”: fazemos cursos, assistimos a filmes, consumimos livros, vemos tv… Absorvemos bastante informação e tanto a quantidade como a velocidade de absorção aumentaram rapidamente. Eventualmente apertamos um pouco a esponja, mas o fluxo q sai, na maioria das vezes, não corresponde ao volume q entra. O resultado é uma saturação da mesma. Chega uma hora q não dá  para absorver mais nada e só nos resta ganhar espaço apertando a esponja vigorosamente. O q sai pode não ter um cheiro bom, afinal, ficou estagnado anos e anos, ficou parado, não fluiu. Diante disso, até recuamos no exercício, temendo o q sai. Todavia acho q não tem outro jeito. Quanto mais apertamos a esponja, mais colocamos o interior em movimento, livramo-nos do “velho” e ganhamos espaço para o “novo”. Mas a grande lição não é repetir o padrão de encharcar a esponja com as novas ideias, pois se assim procedemos, o resultado será novamente a saturação, uma repetição do ciclo. Cabe a nós receber e repassar, não permitindo q as ideias, as informações cristalizem, valorizando o fluxo, o movimento e não o acúmulo, a estagnação.

A esponja